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Stavros Frangoulidis

CEO da PaP - Especialista em prospecção B2B

O mito da agenda cheia e o vazio do pipeline

Você já reparou como agendas cheias costumam ser celebradas enquanto pipelines vazios são tratados em silêncio?

Muita atividade, poucas oportunidades no funil.

É uma cena comum. O gestor chega cedo, sai tarde, participa de reuniões em sequência, responde mensagens no intervalo entre uma ligação e outra e encerra o dia com a sensação de dever cumprido. A semana foi intensa. A agenda, congestionada. O cansaço, legítimo. O problema é que, quando alguém pergunta sobre o pipeline, a resposta vem vaga. Ou defensiva. Ou excessivamente otimista. E quase nunca sustentada por fatos.

Agenda cheia virou um anestésico moderno. Ela reduz a dor de encarar o que realmente importa: a quantidade de oportunidades qualificadas no pipeline.

Byung-Chul Han, filósofo coreano, já tratou disso em seu livro, “Sociedade Paliativa”, onde todos evitam a dor da mudança. Qualuqer desconforto é visto como insuportável. Então é melhor deixar as coisas como estão.

Enquanto o dia está ocupado, não há tempo para pensar. Enquanto há reuniões, não há silêncio. E sem silêncio, não há diagnóstico. O vazio do pipeline raramente aparece de repente. Ele se revela quando a empresa desacelera. Quando um contrato grande termina. Quando uma renovação não acontece. Quando o mercado fica mais seletivo. É nesse momento que a agenda cheia perde o brilho e o funil vazio começa a gritar.

Existe um mito no mundo comercial. A ideia de que estar ocupado é sinal de saúde. De que excesso de atividade significa avanço. De que esforço, por si só, garante resultado. Não garante. Esforço mal direcionado apenas consome energia. Empresas não quebram por falta de reuniões. Quebram por falta de clientes entrando.

Há também um falso prestígio em não ter tempo. Dizer “minha agenda está lotada” soa como importância. Soa como demanda. Soa como relevância. Mas, na prática, muitas vezes significa apenas que a empresa está olhando demais para dentro. Reuniões internas demais. Alinhamentos demais. Ajustes finos em coisas que já deveriam estar funcionando. É a organização girando em torno de si mesma, enquanto o mercado segue em frente.

E os gestores temem colocar de vez a mão na ferida, que é construir um pipeline ou funil, como preferir, sólido.

Lembro de um colega de trabalho que falava “vendedor não pode ficar parado”. Mas pior que vendedor parado é vendedor trabalhando errado. Custa mais.

Funil não se constrói no improviso. Ele não nasce quando surge a urgência. Ele não aparece porque alguém decidiu, em uma segunda-feira tensa, “focar mais em vendas”. Pipeline é consequência de disciplina anterior. De blocos protegidos de prospecção. De testes contínuos. De conversas iniciadas sem a pressão imediata do fechamento. Quando tudo vira prioridade, a geração de demanda vira a primeira coisa a ser empurrada para depois.

E depois costuma ser tarde.

Um dos erros mais comuns é confundir atividade com avanço. Atividade é fazer. Avanço é aproximar receita futura. Nem todo contato aproxima receita. Nem toda reunião resolve um gargalo. Nem toda urgência é estratégica. Empresas maduras aprendem a separar o barulho do movimento real. As imaturas se cansam muito e avançam pouco. E colocam a culpa no mercado.

Esses dias falei com um gestor que confessou ter uma execução de prospecção péssima, mas mesmo assim queria investigar a aderência de mercado. Não há aderência se você não aparece e quando aparece, aparece mal.

Existe também um atraso invisível entre ação e resultado. O pipeline de hoje é o reflexo direto das decisões tomadas semanas ou meses atrás. Quando o funil está vazio agora, o problema não começou agora. Ele foi plantado em agendas cheias demais para prospectar. Em semanas engolidas por operação. Em meses onde gerar novas oportunidades parecia algo que podia esperar. O mercado cobra com juros. E essa cobrança vem em forma de silêncio e escassez.

A agenda é um espelho cruel da estratégia. Basta olhar com honestidade. Onde estão os blocos recorrentes de geração de demanda? Onde está o tempo reservado para testar mensagens, canais, abordagens? Onde está o espaço para conversar com quem ainda não é cliente? Se tudo isso só aparece quando “dá tempo”, então não é prioridade. E aquilo que não é prioridade não sustenta crescimento.

Empresas que crescem de forma previsível tratam pipeline como rotina. Não como campanha. Não como mutirão emergencial. Criam espaço antes da necessidade, não depois do desespero. Elas entendem que disciplina é um antídoto silencioso contra o caos futuro. Pode parecer menos urgente hoje. Mas é decisivo amanhã.

Quando o mercado fica silencioso, não é azar. Não é uma fase mística. Não é apenas conjuntura. O silêncio do mercado é uma resposta. Ele reflete a ausência de estímulos consistentes. Reflete a falta de presença. Reflete períodos longos onde a empresa esteve ocupada demais para ser relevante fora de seus próprios muros.

Agenda cheia impressiona internamente. Pipeline cheio sustenta o negócio. Uma coisa raramente garante a outra. Em muitos casos, são quase opostas. A pergunta que fica não é se sua equipe está ocupada. É se ela está construindo futuro.

E para evitar cair nesse cenário, não é preciso uma revolução. É preciso decisões simples, repetidas com disciplina.

Reserve agenda fixa para geração de demanda, uma hora por dia, por exemplo, mesmo quando tudo parece sob controle. Esse horário é sagrado.

Trate prospecção como rotina, não como projeto temporário. Prospecte todos os dias, no horário reservado.

Meça avanço por oportunidades qualificadas, não por volume de atividades. Seu principal indicador a partir de agora é: Oportunidades Qualificadas.

Elimine reuniões que não geram decisão clara. Elimine todas as reuniões internas, exceto uma ou no máximo duas por semana.

Proteja blocos de foco comercial como compromissos inegociáveis. O futuro da empresa mora nesses espaços.

Olhe o pipeline diariamente, não só quando ele vira problema. O boi engorda sob os olhos do dono.

Crie metas de esforço comercial, não apenas de resultado. Quantidade de empresas prospectadas na semana, primeiras reuniões realizadas e propostas emitidas.

Pare de confundir urgência interna com prioridade estratégica. Nem tudo que grita merece atenção. Proteja sua agenda das pessoas desesperadas e ansiosas, com narrativas catastrofistas e dramáticas.

Assuma que agenda cheia demais é sinal de risco, não de saúde. Empresas saudáveis criam espaço. As frágeis vivem ocupadas.

No fim, a escolha é simples, ainda que desconfortável. Você pode proteger a sensação de estar ocupado. Ou pode proteger a previsibilidade do seu negócio. O mercado, como sempre, vai responder àquilo que você realmente priorizar.

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