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Stavros Frangoulidis

CEO da PaP - Especialista em prospecção B2B

Pressão na área comercial

Você sabe que, nas áreas comerciais, a pressão é o idioma oficial, mas  ninguém tem coragem de admitir que já não entende mais o que está sendo falado. É pressão pela pressão.

A linguagem do dia a dia é feita de metas que sobem sem explicação, mensagens de cobrança às 22h37, reuniões que começam com “vamos alinhar rapidinho” e terminam com o coração acelerado. 

Esse é o padrão. Trabalhar sob tensão constante é tratado como sinal de seriedade, como se respirar fundo fosse sinal de fraqueza. 

Só que existe uma linha tênue entre pressão que guia e pressão que esmaga, e a maioria das empresas já atravessou essa linha sem perceber. Quando respirar vira luxo, pensar vira raridade.

A pressão não nasce no vendedor. Nunca nasceu. Ela nasce na sala de planejamento, no slide que coloca um número redondo sem perguntar ao mercado se ele absorve. Nasce quando a diretoria confunde desejo com realidade. Nasce quando “querer mais” é tratado como sinônimo de “conseguir mais”. Nasce quando a meta é anunciada como decreto divino e não como consequência de um processo saudável. 

A partir daí, tudo vira teatro: o gestor tenta convencer o time de que é possível, o time finge que acredita, e todo mundo sabe que a corrida começou com inclinação maior que a força das pernas.

Triste realidade. Vivi isso por décadas! 

Ouvi uma vez um diretor comercial dizer, com a tranquilidade de quem revela uma verdade universal: “Se eu não apertar todo dia, ninguém entrega”. Aquela frase nunca mais saiu da minha cabeça. Ele realmente acreditava que o ser humano no comercial é preguiçoso por natureza e que o único antídoto é o medo. Pobre coitado (desse diretor). 

O erro é tão óbvio quanto devastador: se o único motor é pressão, então processo não existe. E quando processo não existe, pressão vira combustível errado. Combustível errado queima o motor antes de andar cem metros.

Vendedores vivem um paradoxo cruel.

Ciclos de seis a dezoito meses, múltiplos decisores, contratos de sete dígitos, risco reputacional altíssimo se algo der errado. Cada oportunidade é um parto. Cada “não” pode custar o trimestre inteiro. Ao mesmo tempo, espera-se que o vendedor seja veloz, consistente, previsível como uma esteira de academia. Precisa ter paciência de monge e fome de lobo ao mesmo tempo. Poucas funções corporativas exigem contraditório tão explícito. E a pressão que cai em cima dele raramente leva em conta qualquer uma dessas variáveis.

É aí que a pressão deixa de ser ferramenta e vira veneno. Quando cobram velocidade sem respeitar o tempo do cliente. Quando exigem pipeline cheio mas não ajudam a matar contas-zumbi. Quando pedem previsibilidade mas trocam prioridade toda segunda-feira. Quando falam em foco mas lançam dez iniciativas ao mesmo tempo. A pressão fica descolada da realidade e vira ansiedade institucionalizada. O vendedor para de jogar para ganhar e começa a jogar para não ser o próximo alvo da reunião de segunda. E quem joga só para não apanhar nunca entrega o melhor.

Essa cultura baseada em medo distorce tudo. O vendedor começa a prometer prazo impossível para fechar logo. Concede desconto sem critério. Engole objeção grave. Esconde risco relevante. Tudo para evitar o olhar de desaprovação na próxima call. O medo muda comportamento de forma silenciosa e letal. Tira racionalidade da negociação, reduz qualidade da conversa, destrói previsibilidade. E, ironicamente, entrega exatamente o que a liderança mais teme: perda total de controle.

O burnout não chega gritando. Ele chega se instalando. Primeiro o time sente que não importa o quanto corra, nunca é suficiente. Depois vem a dificuldade de concentração, o sono ruim, a dúvida constante. Em seguida aparecem os atritos internos, os atrasos, as bolas deixadas cair. Logo os clientes começam a reclamar de erro bobo, promessa não cumprida, follow-up que nunca veio. A empresa olha o número, conclui que falta garra e aperta mais. O ciclo recomeça. O burnout comercial é só a soma de dias em que cobrança foi confundida com gestão.

O churn nas equipes comerciais é altíssimo. Os caras, com razão, largam o boné e caem fora.

Não digo que a acomodação é algo que não existe. Pelo contrário. A acomodação é o pior que pode acontecer com qualquer profissional. Mas esse tipo de pressão vindo do ambiente, da cultura da empresa, é tiro no pé! 

O mais impressionante é que ninguém questiona a origem dessa pressão. Aceita-se como lei da natureza que o comercial viva tenso. “Faz parte.” “Quem escolheu essa área sabia.” A pressão virou dogma: se não dói, não funciona. Se não sufoca, não entrega. 

Esse pensamento precisa ser demolido. Não porque pressão deva sumir – ela não vai – mas porque ela precisa voltar ao seu lugar de ferramenta, não de identidade. Ferramenta se usa com calibre, intenção e inteligência.

Quando usada com inteligência, pressão vira superpoder. Ela cria foco cirúrgico. Elimina distração. Mostra exatamente onde colocar energia e onde não desperdiçar. Reforça as poucas atividades que realmente movem o funil. Dá urgência saudável. Um time que entende o “porquê” da pressão canaliza-a em vez de sofrer com ela. A pressão deixa de ser barulho e vira sinal de GPS.

Para isso, o gestor precisa ser o grande tradutor da pressão. Ele pega o número bruto que desce da diretoria e transforma em plano executável. Blinda o time de ruído. Mata iniciativa inútil. Simplifica processo. Faz pergunta que esclarece, não que ameaça. Tem coragem de dizer não. Equilibra firmeza com suporte. É o amortecedor entre a diretoria e o chão de fábrica. Sem esse amortecedor, a pressão chega crua e queima tudo.

Sem amortecimento, a cultura desaba rápido. Reunião vira tribunal. CRM vira algema. Conversa deixa de ser sobre causa e vira caça às bruxas. O vendedor mente para sobreviver: infla pipeline, esconde risco, maquía realidade. Quando a verdade explode, a liderança interpreta como falta de compromisso. A espiral se alimenta sozinha.

Essa espiral virou padrão silencioso na maioria das empresas B2B.

O time acha que está cansado porque o mercado está difícil. Que está ansioso porque o cliente mudou. Na verdade, só mudou a estrutura da pressão. Ela perdeu forma. Sem forma, pressão deixa de impulsionar e começa a corroer.

A empresa então tem duas escolhas.

Seguir achando que o problema é falta de esforço e apertar mais. Ou parar, olhar com honestidade e perceber que o problema é falta de método. Empresas que crescem de verdade entenderam que time exausto erra mais, decide pior e vende menos. Maturidade comercial não nasce sob pânico. Nasce sob clareza. E clareza não vem de grito. Vem de direção.

O vendedor aguenta má notícia, aguenta meta alta, aguenta concorrência feroz. O que ele não aguenta é desordem, bagunça. Não aguenta mudar de prioridade toda semana. Não aguenta ser cobrado por resultado que não controla. Não aguenta jogar um jogo sem regra clara. Esse é o limite real.

No fim, o que separa time que cresce de time que só resiste é uma coisa só. Inteligência no desenho da pressão. Pressão não vai embora – ela pode ser domada. Pode organizar em vez de destruir. Pode amadurecer pessoas em vez de adoecê-las. Pode orientar decisões em vez de distorcê-las. Quando a empresa entende isso, a área comercial deixa de ser zona de guerra e vira motor.

E aí algo mágico acontece. Acredite em mim. Algo mágico acontece.

A pressão certa revela talento, cria disciplina, acelera aprendizado, gera previsibilidade, protege margem, melhora qualidade de cliente, sustenta crescimento. A empresa descobre que pressão não é o inimigo. O inimigo é pressão sem direção. Com direção, pressão vira vantagem competitiva que ninguém copia.

Toda empresa tem pressão. Pouquíssimas têm direção. Sem direção, pressão é ruído. Com direção, pressão é precisão. E precisão é o que separa quem apenas sobrevive ao trimestre de quem constrói um comercial que cresce ano após ano, com saúde, com margem e com gente que ainda gosta de vender.

E bum!! Mais um contrato fechado. E bum! Outro contrato fechado!

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Stavros Frangoulidis – CEO

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