Conheci um empresário há alguns anos que tinha uma gráfica de médio porte. Três clientes representavam 85% do faturamento dele. Um deles, o maior, era um banco. Quando perguntei sobre prospecção, ele me olhou como se eu tivesse sugerido a ele apostar em cavalos. “Pra quê? Minha carteira está cheia, está tudo funcionando.”
Seis meses depois, eu soube o que era previsível. O banco havia sido comprado por um grupo multinacional que já tinha fornecedor global. O segundo cliente faliu na crise. Ele precisou fechar a gráfica.
A questão não era se isso ia acontecer. Era quando.
Eu mesmo quebrei 4 vezes por conta da dependência de poucos clientes que foram embora. Duras lições. Eu sabia que andava na corda bamba, mas era bom servir grandes contas e receber altos valores. Até o dia em que marcam a reunião para avisar que por xyz motivo a parceria vai se encerrar.
Depender de poucos clientes é um erro estratégico que parece confortável enquanto o fluxo de caixa está saudável, mas é letal quando o cenário muda. A matemática é simples e implacável: quem tem três clientes e perde um, perde um terço da receita; quem tem dez e perde um, perde somente 10%. O risco é proporcional à dependência. O faturamento cai. A estrutura fica. O buraco financeiro abre rápido.
Essa fragilidade é raramente percebida quando tudo vai bem. A empresa acredita que seus clientes são fiéis, que a satisfação garante continuidade. Mas o mercado não opera por gratidão — opera por conveniência, por custo, por política interna. Um novo gestor chega, um orçamento muda, uma fusão acontece, e aquilo que parecia sólido se desfaz de um dia para o outro.
Eu queria saber e acreditar nisso alguns anos atrás.
Mesmo clientes satisfeitos vão embora. Às vezes porque foram comprados, às vezes porque o novo diretor quer “os seus fornecedores”, às vezes porque a empresa cresceu e você ficou pequeno demais — ou encolheu e você ficou caro demais. Em outros casos, a culpa é sua: a acomodação, a rotina, o atendimento que deixou de surpreender.O ponto é: você não controla quase nada disso. Por isso, não pode buscar estabilidade sobre o que não controla.

E quando um cliente grande sai, vem o desespero para repor a conta perdida.
Então entra em cena um outro fator mais sutil, mas igualmente danoso: o cheiro da escassez.
O mercado sente quando você está desesperado. Isso aparece no tom de voz, na pressa de responder, nas concessões que você faz sem serem solicitadas. A ansiedade tem cheiro — e o cliente sente.
Quando você prospecta com abundância, fala com calma, escolhe melhor, impõe critérios. Quando prospecta com sede, aceita qualquer coisa. E paradoxalmente, quanto mais precisa daquela venda, menor a chance de ela acontecer. O desespero repele.
Prospectar antes da necessidade é uma questão de energia, não apenas de planejamento. É transmitir segurança, e segurança é irresistível.
A ideia de que bons clientes são eternos é uma ilusão reconfortante. Os dados demonstram o contrário: a taxa média de retenção de clientes B2B gira entre 70% e 85% ao ano. Isso significa que, mesmo com ótimo serviço, você perde entre 15% e 30% da sua carteira todos os anos. Se não estiver repondo, está encolhendo.
E há uma transformação silenciosa em curso. A nova geração de compradores — os gestores millennials e geração Z — valoriza eficiência, inovação e clareza mais do que laços antigos. O argumento “somos parceiros há 15 anos” já não pesa como antes. No mercado da informação instantânea, o cliente sabe exatamente o que a concorrência oferece. E muda, não por ingratidão, mas por racionalidade.
Clientes, uma hora, vão embora. Essa é uma lei máxima do mercado B2B.
A palavra fidelidade perdeu força. O que sustenta a relação é valor, relevância e constância — e nada disso substitui a necessidade de continuar cavando.
Empresas que sobrevivem a longo prazo tratam prospecção como linha orçamentária obrigatória, não como despesa eventual.
As startups destinam de 20% a 30% do faturamento à aquisição de clientes. Empresas em crescimento mantêm entre 10% e 15%. As consolidadas, de 5% a 10%. É investimento vital — o oxigênio que garante que o motor continue rodando mesmo quando o mercado aperta.
Por aqui, com as lições aprendidas, destinamos 20% da receita bruta para prospecção. Preferimos apertar o cinto e focar em manter uma estrutura magra, ágil e flexível e assim fazer espaço para garantir verbas para prospecção.
Prospectar não é campanha, é cultura. É acordar todo dia sabendo haver novas conversas acontecendo, novos contatos sendo abertos, novas oportunidades sendo geradas. Porque quem cava todos os dias nunca teme a seca, nunca morre de sede.
O perigo da zona de conforto é que ela se disfarça de estabilidade. Quando as coisas estão funcionando, a tentação é parar de fazer o que te trouxe até ali. O site deixa de ser atualizado, o networking diminui, as ligações se espaçam. A engrenagem da prospecção, que exige ritmo e músculo, começa a enferrujar.
Quando o primeiro cliente sai, parece algo pontual. Mas o segundo vem logo depois, e quando percebe, a máquina está parada. É aí que começa o desespero — e o desespero em nada ajuda para fechar novos negócios.
O ciclo é previsível: conforto → inércia → perda → urgência → erro.
Já vi esse filme dezenas de vezes. Já fui protagonista desse filme.
O antídoto é simples: constância na prospecção.
“Cavar o poço antes da sede” é um provérbio árabe que sobreviveu milênios porque descreve um comportamento universal. No deserto, quem espera sentir sede para cavar já está condenado. No mercado, quem espera perder clientes para prospectar também está.
Então, antes de encerrar este texto, faça um exercício simples. Pergunte-se:
- Quantos clientes respondem por 80% do seu faturamento?
- Se o maior saísse amanhã, quanto tempo sua empresa resistiria?
- Quanto você investe, de fato, em adquirir novos clientes?
Responder a essas perguntas pode ser desconfortável, mas é o primeiro passo para sair da ilusão de segurança e entrar na realidade do crescimento sustentável. Prospectar não é sobre preencher o funil. É sobre preservar sua independência e sobrevivência como empresa.